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   R. dos Condes, 2-20

JN, 26/05/02

Odeon cai à espera de novos projectos


Cinema, propriedade de uma sociedade por quotas, está à venda. La Féria denuncia interesses: estão a aguardar que o terreno valorize

GINA PEREIRA

Uma aura de degradação paira sobre o cinema Odeon, na esquina da Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa. O edifício - com quase 80 anos - está fechado há quatro e clama por recuperação. Os efeitos do abandono a que foi votado vêem-se da rua mas é dentro do edifício que se tem a clara noção de que uma das grandes salas de cinema de Lisboa está a cair lentamente. À espera que alguém decida avançar na cruzada da recuperação.
Filipe La Féria, encenador e empresário cultural da zona, disse ao JN que, durante três anos, tentou negociar com os proprietários do edifício - uma sociedade por quotas, de nome Parisiana. Mas acabou por desistir, dadas as dificuldades para chegar a acordo comos muitos proprietários do edifício que, "cada dia que passa, pedem mais dinheiro por aquilo".
No seu entender, "os proprietários destes espaços ganham mais em mantê-los fechados do que em abri-los, porque o valor imobiliário do terreno está sempre a valorizar". Pelo que apela às promessas feitas por Santana Lopes durante a campanha eleitoral, para que crie leis "que obriguem os proprietários das casas de espectáculos a pagarem multas por as manterem fechadas".

Magia envolta no pó
Enquanto tal não acontece, é com tristeza que Artur Martins, 62 anos, actual projeccionista do cinema Olimpia e durante 42 anos funcionário do Odeon, entra no edifício moribundo do cinema. Tem a chave do cadeado na mão e usa-a, muitas vezes, para revisitar o espaço onde projectou filmes que jamais esquecerá. Foram várias as personalidades que, nos últimos anos, guiou em visitas pelos quatro pisos do edifício: anteriores ministros da Cultura e, mais recentemente, o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, alémde potenciais interessados na aquisição do espaço.
Contudo, apesar das visitas assíduas, Artur Martins já não acredita na recuperação do Odeon para cinema. E teme que lhe suceda o mesmo que quando começaram a demolir o antigo Éden, hoje transformado em hotel. "Tive de fugir. Aquilo eram pancadas na minha cabeça".
"Nós, os projeccionistas, olhamos para isto como uma oficina. Quando um cinema fecha, é menos uma oficina que temos para trabalhar", diz, lamentando já ter "fechado" dois cinemas e mostrando-se "preparado" para assistir ao desaparecimento de um outro: "O Olimpia não resiste muito mais tempo".
Apesar da degradação e do muito pó que cobre todo o interior do Odeon, não é difícil imaginar o cinema em funcionamento. A sala permanece composta, a tela esticada no ecrã, os camarotes com cadeiras e as alcatifas vermelhas no chão. Algumas janelas têm cortinados pendurados e o bar ostenta o preçário que em tempos praticou. Ali, mais de 500 pessoas chegaram a assistir a filmes.
As amplas varandas a todo o comprimento do edifício -duas delas fechadas com vidros coloridos, a última aberta - são o que está em pior estado. As paredes descarnam, a tinta estala e as madeiras das portas incham. Tudo parece ameaçar cair a qualquer momento. Sóas duas enormes máquinas de projecção ainda funcionam.
O cinema Odeon está à venda há alguns anos e, segundo confirmou o JN junto do representante de um dos sócios com uma quota mais expressiva, "têm-se perfilado vários interessados". "Houve uma manifestação de interesse para um projecto hoteleiro, mas não agrada aos actuais proprietários, que gostariam de ver preservada a memória dos fundadores, vendo no local implantado um projecto cultural que dignificasse o espaço e a cidade", diz.

Venda: 2,5 milhões de euros
Há ainda um outro grupo que se perfila na corrida e que já fez chegar o seu projecto - intitulado Novo Odeon - à vereadora da Cultura na CML. O grupo desafia a autarquia a adquirir o edifício - "para que se evitem os males do Roma, São Jorge e Tivoli, hoje à deriva" - e a "relançar aquela zona, hoje completamente moribunda". Em contrapartida, garantem uma gestão profissional do recinto, que pretendem recuperar "respeitando o passado e tendo em conta as novas tecnologias".
Segundo explicam numa página na internet, onde tentam angariar apoios, querem dotar o Odeon de condições para cinema, teatro, recitais e seminários, converter a cervejaria em ciber-café e posto de vendas de artigos de cinema. Só que têm um problema: embora não
esteja definido à partida o valor da venda - uma vez que depende do preço de cada uma das quotas - tudo indica que ele ronde os 2,5 milhões de euros (500 mil contos). E esperam o apoio do mecenato para avançarem com este projecto.