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   R. dos Condes, 2-20

MAGAZINE ARTES, Nº 2, Janeiro de 2003

OS MEUS LOCAIS, por Jorge Silva Melo




O ODÉON VAI RENASCER: AI QUEM OS OUÇA!



Quando eu andava por tudo quanto era sala de cinema de Lisboa, tinha eu treze anos, muitos amigos e já arqui-inimigos – e isso durou até aos vinte e poucos anos - do Bélgica ao Rex, do Royal ao Palatino, do Campolide ao Lys, do Tivoli ao Éden, naquela gloriosa década da minha adolescência em que tanta coisa aconteceu ao cinema, o CinemaScope, o Tempo e O Modo, o Todd-Ao, o Ingmar Bergman, a Nouvelle Vague, o Paulo Rocha…quase nunca fui ao Odéon.

Já vira, infante, os filmes cantarolantes do Joselito, já usava calças compridas, rompiam os anos 60 e daí à sua irreversível queda, o Odéon esqueceu-se dos Stroheims, dos Langs, dos Hitchcocks, dos Capras com que abriu e só mostrava dramalhões vindos do México ou da vizinha Espanha sobre os quais sorríamos, nós os muito lidos, com infindo desdém. Ou vinham os “Sarilhos de Fraldas” com vedetas da rádio a engarrafarem o trânsito nas noites de estreia. Ou eram western-spaghetti dos mais espanholados, daqueles com muita poeira e laca no cabelo das damas com rimmel e tudo.

Ainda lá fui ver um muito bonito William Wyler, num verão, quando os verões eram a altura bendita das reposições ( “Os Melhores Anos das Nossas Vidas”), ainda lá me entretive com o balbuciar de uma nova vaga ( Nueva Ola) espanhola, o Summers e o Picazo ( que lindo filme que não voltei a ver, “La Tia Tula”). Mas andávamos por outras bandas. Deixávamos aquela sala para as criadas de servir que lá iam aos domingos, como quem lia o folhetim ou ouvia o Tide, qualquer que fosse o filme, chorar com mães solteiras, filhos desencontrados, mal-casadas, alcoólicos regenerados, essas coisas do destino. Seriam elas, grupo em extinção, quem tinha razão por tanto chorar com a “Ama Rosa” com a Império Argentina e com os inenarráveis “Filhos de Ninguém” com Amedeo Nazzari.

Mas hoje dá-me saudades baratuchas desses filmes que quase não vi, que reuniam milhares de mulheres sozinhas que ali passavam a tarde de domingo, vestidas com o conjunto de malha que lhe vendiam uns homens que andavam pelas escadas de serviço, enquanto o magala que lhes prometera casamento ia e vinha das colónias quando não de outra mulher. Era todo um mundo triste e esperançoso que apenas entrevi aqui em casa, cartas, madrinhas de guerra, choros. Que canções piegas e dramas extremos ajudavam a passar.

Para nós, cinéfilos de primeira, era analfabeta esta cinefilia de segunda, feita só de sentimentos pobres. Mas seria de segunda? Quando agora se redescobrem os melodramas italianos justamente com as Isas Mirandas, as Silvanas Pampaninis e os Amedeo Nazzari, quando eu próprio ponho as mãos no fogo pela excepcional Sara Montiel, quando em Madrid compro cassetes para ver a Lola Flores dançar, a mesma Lola Flores a quem pedi autógrafo neste mesmo Odéon, que procuro, que inocente cinefilia busco? Saudades de um cinema popular e mulheril – nós que percorríamos as capelinhas do cinema popular e varonil, machão, de cow-boys e putas com os belos Boeticher ou os tremendos Fuller a passar de vez em quando ali mesmo em frente, no pecaminoso Olympia de todos os escarros.

Não é a minha casa, o Odéon, mas do que eu gosto é da sala, uma sala de cinema, uma autêntica sala de cinema, com foyers, varandas, balcões, écrans e aquele tecto de abrir em pau-brasil, tecto de verbena, de opereta neste que foi o templo da espanholada no coração mesmo de Lisboa, onde ainda vi a enésima versão da “Verbena de la Paloma” com uma Paquita Rico de quem não me esqueço, graciosa e salerosa. Ou o “Donde Vas, Triste de Ti?” com o Vicente Parra, a Carmen Sevilla, amores de rei e de tristes raparigas.

Há, agora, uns rapazes enérgicos que parecem decididos a tomar conta daquilo, lá andam entre bancos e IPPAR, Secretaria de Estado e Câmara, fiadores e sponsors e primos com certeza, uma vitória aqui, uma demora ali e mais papéis, burocracia, telefonemas, “está em reunião”, essas novas coisas do destinho, mas decididos a voltar a ter gente naquele casarão lindo e agora abandonado. Ainda o fui tentar para os Artistas Unidos e uma manhã de sol num início de Primavera – desabrochavam as flores - fui conversar com os senhores que tratavam da venda , um encontro num terraço lindo da rua do Salitre, ajardinado e debaixo de uma pequena pérgola que dá para o Parque Mayer. Eram encantadores, os senhores Baudoin, e dessa manhã saí com o coração mais terno e a sonhar com um Odéon onde voltasse a ver cinema e, porque não, umas senhoras com casaco de peles e colar. E, um dia, recebi um e-mail destes rapazes que não conheço mas com quem me correspondo: e fiquei contente, tão contente fiquei por eles terem a cumplicidade do antigo projeccionista, o senhor Artur Martins que às vezes está ali na Rua dos Condes a fumar o seu cigarro e a falar dos velhos filmes e das toilettes das estreias, verdadeiro cinéfilo, recordando o cinema Éden, o Tivoli, o seu Odéon. Destes rapazes que vão fazer o Novo Odéon, quem mais me fala é um economista ( “merceeiro encartado”, diz ele, e esta auto-ironia dá-me garantias morais) mas que, para lá dos cifrões e do PSI 20, cresceu, diz ele a ver no Odéon "western spaghetti"… e por culpa das duas avós: um viciada em cinema e corria com ele às costas por tudo quanto era cinema desde 1969-1981. A outra porque chegou a ter uma carreira efémera no teatro, na década de 20, antes de casar”. E têm tudo como deve ser, consultores para merchandise, responsável por programação ( o Rui Pereira da Zero em Comportamento), associação Lisboa Abandonada, pessoas da publicidade, unidades de gestão, contas, orçamentos… é gente séria. E com site na net, como se pode ver se se fizer http://www.geocities.com/novo_odeon/odeon.html ( tal qual) Gente com a qual, via net, simpatizo...

E hão-de conseguir, são teimosos e organizados, hão-de conseguir voltar a abrir a rua dos Condes para os meninos que não fui irem chorar e amar, para as raparigas apressadas aguardarem beijo, pois sempre foi para namorar que se fizeram as salas de cinema, noites abertas.

É que o Odéon é uma sala de cinema.

Não, não façam dele uma sala de teatro, como já ouvi que há quem queira. Nem sala multi-usos com conferências, o Odéon é uma sala de cinema como já não há, sala para se ficar às escuras e quando o filme acaba e se abrem as portas à direita, a luz do dia ferir os nossos olhos marejados, evidentemente, de sentimentais, odeónicas lágrimas.

Eu sei que aqui cantou a Hermínia e eu próprio vi cantar a Lola Flores e o Calvário.

Sim.

Mas o Odéon é um cinema para, às escuras, chorarmos.

Chorarmos as mulheres esquecidas pelos magalas como nos filmes que aqui passavam ou nos de Mizoguchi; chorarmos os amores trocados como em Kazan ou em Luís César Amadori, tremermos com vinganças terríveis ou destinos desnorteados como em Buñuel, expandirmos o desengano como em Manuel Mur Oti que por aqui deve ter sido exibido e ninguém reparou, só depois, na Cinemateca.

Como vai ser bom abrir-se o Odéon de novo.

E que ousadia!

E como era bom abri-lo com um filme que nunca lá deram mas sintetiza tudo o que nele se passou, todos os lenços molhados: “Cumbres Borrascosas”, o sublime Monte dos Vendavais do surrealista popular que foi Buñuel.

Abram-me o Odéon, por favor.

E eu diria, em memória das vítimas do cinema, dos que acreditaram nos amores eternos e nas promessas de um beijo, em memória das mulheres que nessa sala choraram e se consolaram por tanto lavarem a louça das patroas.


Jorge Silva Melo